VIAJANDO NA MODA: LENBACHHAUS EM MUNIQUE
- 22 de out. de 2025
- 4 min de leitura
Atualizado: 18 de nov. de 2025

Há lugares que parecem feitos para ampliar o olhar. Para mim, os museus são assim, templos silenciosos onde o tempo desacelera e a cor se torna linguagem.
Sempre que viajo, procuro um espaço onde possa aprofundar minhas percepções e retomar meus estudos de cor. Em Munique, esse espaço foi o Lenbachhaus und Kunstbau, um dos museus mais emblemáticos da Alemanha, dedicado à arte moderna e ao grupo Der Blaue Reiter.

A visita aconteceu durante a exposição “Lebensmenschen”, dedicada ao pintor Alexej von Jawlensky e à artista Marianne von Werefkin, parceiros na vida e na arte, que juntos ajudaram a redefinir o modo como o mundo via a cor no início do século XX.
Entrar nas salas do Lenbachhaus foi como atravessar uma sinfonia visual: paredes em tons vibrantes, pinceladas intensas, atmosferas que pulsavam energia e sentimento.
O azul que pensa
Esses artistas pertenciam a um momento em que a cor deixava de ser apenas um recurso estético e passava a expressar estados interiores.

O azul de Kandinsky, o amarelo de Franz Marc, o vermelho de Jawlensky, cada tonalidade possuía um valor simbólico e uma dimensão emocional. O grupo Der Blaue Reiter, formado em 1911, nasceu como um movimento de ruptura contra o realismo e a representação literal.
Para eles, pintar era traduzir o invisível. Era dar forma ao espiritual, ao que não se explica por palavras.
No caso de Jawlensky e Werefkin, essa busca era também uma conversa íntima. Marianne, com sua formação sólida e sua reflexão profunda sobre o papel da arte, incentivava Jawlensky a mergulhar na cor como expressão do sagrado. Ele, por sua vez, via na pintura um caminho de transcendência.
O resultado dessa troca aparece nas telas: rostos icônicos, paisagens místicas e composições entre o figurativo e o abstrato, sempre marcadas por contrastes cromáticos radicais.
A arquitetura da cor
Caminhar pelas salas do Lenbachhaus é entender que a cor é também arquitetura.
As paredes, pintadas em tons de laranja queimado, verde petróleo e amarelo ocre, não servem apenas de fundo, elas participam da narrativa visual. Cada ambiente é pensado como uma extensão da obra, criando um diálogo contínuo entre o espaço e a pintura.
Essa curadoria cromática ensina muito sobre harmonia e temperatura de cor, lições que ultrapassam o campo da arte e chegam ao design, à moda e à estética cotidiana.
A cor, ali, não ilustra: ela estrutura o olhar.
A liberdade do gesto

Diante da pintura “Hyacinth Elongated” (1902), de Alexej Jawlensky, um vibrante nature morte expressionista feito de pinceladas espessas e cores pulsantes, fiquei por alguns minutos em silêncio.
O quadro parece respirar. Cada traço carrega uma energia vital, uma tensão entre beleza e melancolia. O vermelho, o violeta e o verde se entrelaçam como se fossem vozes em um mesmo acorde emocional.
Há algo profundamente humano nessa composição: a tentativa de capturar o instante em que a cor ultrapassa o real e se transforma em sentimento. Foi ali, diante daquela tela, que percebi novamente o que sempre me fascina no Expressionismo: a liberdade.
A liberdade de deixar que a cor fale antes da forma. De permitir que o instinto guie o olhar.
De usar a cor não como descrição, mas como emoção. De deixar que o sentimento conduza o pincel.
É essa liberdade que me move em meus próprios estudos e compreender como os mestres conseguiam traduzir energia em pigmento, espiritualidade em forma.
Marianne von Werefkin, por sua vez, é uma das figuras mais inspiradoras da história da arte moderna. Nascida na Rússia e formada na Academia de São Petersburgo, ela foi uma das primeiras mulheres a afirmar a arte como caminho de consciência.
Espiritualidade e cor

O Der Blaue Reiter compreendia a arte como força espiritual: uma ponte entre o visível e o invisível.
Kandinsky, em Do Espiritual na Arte, dizia que o azul é a cor da profundidade e do infinito, e que quanto mais escuro ele é, mais evoca o desejo pelo eterno.
Não é por acaso que o grupo escolheu esse nome: O Cavaleiro Azul representava o ideal de busca interior. O cavaleiro simbolizava o movimento da alma, e o azul, o horizonte espiritual.
Diante dessas obras, a cor deixa de ser apenas cor. Ela se torna vibração, consciência, silêncio.
É o que faz com que uma tela de cem anos ainda pareça viva, contemporânea, pulsante.
Harmonia e contraste

Na moda e no design, ou seja, campos onde a cor é também linguagem, há muito o que aprender com os expressionistas.
Eles compreendiam que a harmonia nasce do contraste, e que o equilíbrio cromático não está na uniformidade, mas no diálogo entre opostos.
Um vermelho ganha força diante de um azul. Um amarelo vibra quando encontra o violeta. Uma sombra verde pode transformar toda a percepção de um tom neutro.
Essas relações emocionais da cor são a base da composição visual contemporânea. E talvez por isso visitar museus como o Lenbachhaus seja tão essencial: eles nos reconectam com a origem da harmonia, aquela que nasce do instinto, e não da fórmula.
Ver o mundo com olhos cromáticos
Sair dessa exposição foi como sair de um laboratório sensorial. As paredes coloridas, as camadas de luz e sombra, o diálogo entre as obras, tudo parecia ensinar que a cor é uma forma de pensar, não apenas de ver.
Os estudos de cor são isso: uma forma de sentir o mundo pelas tonalidades que ele oferece.
O Der Blaue Reiter não foi apenas um grupo de artistas, mas uma atitude diante da vida.
Eles pintavam sentimentos e buscavam a dimensão lírica da existência.
Essa é também a essência do meu trabalho: traduzir o invisível em cor, encontrar harmonia entre essência e estética, compreender a beleza como expressão de consciência.
Estudar cor é estudar o humano. Porque cada tom carrega uma emoção, uma memória, uma vibração. Quando aprendemos a lê-los, aprendemos também a compreender o que está além da superfície.
Foi um aprendizado sobre novas harmonias, um show de cores e sensibilidade.





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